Brasil

Nos primeiros 11 dias do ano, 33 mulheres foram vítimas de feminicídio e 17 sobreviveram

Média é de cinco casos a cada 24 horas; especialistas relacionam crime com ideia de dominação manifestada por agressores

Um crime escandalizou ontem a pequena cidade de São Luís do Quitunde, no Norte de Alagoas. Osmar de Barros Portela, de 54 anos, matou a facadas a sua mulher, Rosineide Bernardes de Andrade, 55. Foi preso em flagrante. E Rosineide entrou no rol das vítimas de feminicídio. Já foram 50 casos (consumados ou não) registrados em 2019, quase cinco por dia.

O levantamento foi conduzido por Jefferson Nascimento, doutor em Direito Internacional pela USP, com base no noticiário nacional. Em 2017, uma pesquisa realizada com a mesma metodologia apontou 2,59 ocorrências diárias.

Em 2018, a Central de Atendimento à Mulher — Ligue 180 registrou, em média, 586 denúncias mensais de tentativas de feminicídio. Em 2017, foram 229.

No Rio, entre janeiro e novembro do ano passado, foram registrados 62 feminicídios e 269 tentativas. Kamila Oliveira, de 30 anos, sobreviveu após levar oito facadas, a maioria na cabeça, de seu ex-marido, em setembro. Eles foram casados durante dez anos e estavam separados quando o crime ocorreu. Segundo a autônoma, ele já a havia ameaçado com uma faca e foi preso por três meses após agredi-la.

O crime foi em frente a sua casa, e a filha mais nova, de 6 anos, presenciou tudo. Os vizinhos, que ouviram os gritos da menina, ajudaram, e o agressor foi preso, depois de tentar fugir.

— Quando pedi a ele para parar de me esfaquear, falei, “para que eu tenho duas filhas para criar”. Ele dizia tanto que amava as filhas, mas não pensou nelas — desabafa Kamila. — A mulher se casa apaixonada, só que o agressor nunca vem como agressor. Vem como um homem apaixonado também e, na maioria dos casos, a vítima não sabia de seu histórico. Ele (ex-marido) começou a me agredir um ano depois de casado.

Desejo de dominação

Kamila ressalta que é um longo processo até que a mulher entenda que está passando por violência doméstica, que envolve questionamentos como “é pai dos meus filhos”, “meu marido”, “o que as pessoas vão dizer”. Agora, outras mulheres passaram a procurá-la para buscar conselhos.

Especialistas acreditam que a raiz do feminicídio é a ideia de domínio patriarcal, algo que sobreviveu ao acirramento de medidas punitivas, como a sanção da Lei Maria da Penha, em 2006.

— Há uma tentativa de combate à violência contra a mulher, mas vemos como esses casos ocorrem em cidades de todos os portes, com vítimas de vários perfis socioeconômicos e faixas etárias — destaca Nascimento.

A aposentada Maria de Lourdes Barbosa Rodrigues, de 44 anos, ainda não conseguiu aceitar a morte de sua filha, Maiana, de 20, e da neta, de apenas um mês de idade. Ambas foram assassinadas pelo ex-namorado da jovem, que foi preso e se matou dias depois, em Dourados (MS). Eles teriam brigado pouco antes do crime.

— Foi uma perda irreparável — lamenta Maria de Lourdes, que recorrerá a atendimento psicológico. — Agora mesmo vim do quarto dela, onde estão todas as suas coisas. Não consegui me desfazer de nada.

Membro da Coordenadoria de Mulher em Situação de Violência Doméstica do Rio e presidente do grupo de trabalho Feminicídio do TJ-RJ, a juíza Katerine Jatahy explica que, diferentemente dos homicídios contra homens, a imensa maioria dos crimes contra mulheres são cometidos em ambiente doméstico, ou por pessoas conhecidas, que tiveram uma relação íntima com a vítima, o que denota uma agressão motivada pelo desejo de dominação do sexo oposto.

— Sair do ciclo da violência é muito difícil, porque ela começa com sutilezas, implicâncias, até que o agressor vai e dá um tapa — explica Jatahy. — Muitas vezes, a mulher tem dependência financeira e psicológica do marido, ou já está com a autoestima muito baixa.

Segundo a advogada Leila Linhares, a partir da promulgação da lei do feminicídio, em 2015, os homicídios de mulheres passaram a ser investigados com maior rigor. Antes disso, os casos por motivação de gênero ficavam diluídos dentro em uma taxa geral de homicídios.

A obtenção de índices mais detalhados, porém, não é uma medida suficiente para combater o que define como comportamento misógino e violento arraigado há séculos:

— Percebemos que esses crimes acontecem quando essas mulheres não querem mais ficar em relações violentas — aponta Linhares, uma das autoras da Lei Maria da Penha e diretora da ONG Cepia. — Chega um momento em que ela consegue sair dessa relação, e o homem vai se vingar. São crimes de ódio. É achar que a mulher é um objeto deles (dos agressores). Então, a partir dessa ideia de posse, faz com ela o que bem entende e acha que isso está certo.

Professora da Faculdade de Ciências Sociais da PUC-SP, Elaini Silva considera que encarar as tentativas de feminicídio como crimes passionais — ou seja, baseados na emoção — faz parte de uma “estratégia de não responsabilização dos acusados”.

— O número de casos de feminicídio no país demonstra que é claramente uma questão de violência estrutural — destaca Silva, que integra a Rede Feminista de Juristas. — Por isso, não podemos achar que propostas que foquem apenas no indivíduo, como o aumento da punição, serão capazes de reverter esse quadro. É preciso ir à raiz do problema: adotar políticas que reforcem em todos que as mulheres têm direitos.

Marlise Matos, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem) e do Centro do Interesse Feminista e de Gênero — CIFG (UFMG), ressalta que se, de fato, for aprovada a liberação do porte de armas, os casos de violência vão “explodir”.

— O Estado tem o dever de garantir às cidadãs brasileiras, que pagam impostos e são a maioria, uma vida sem violência. É um direito humano fundamental e um direito constitucional. Mas estamos a milhões de anos luz distante de algo que chegue próximo a isso.

Em nota, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos afirmou que o canal Ligue 180 é uma “política pública essencial para o enfrentamento à violência contra a mulher em âmbito nacional e internacional”:

“Em 2018 foram registradas e encaminhadas 92.323 denúncias pelo Ligue 180.  Após o recebimento das denúncias os encaminhamentos são feitos diretamente às Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher – DEAM’s, de acordo com os respectivos tipos de violação e classificação das demandas, no intuito promover maior agilidade quanto à apuração das denúncias, sobretudo àquelas que necessitam de retorno imediato, como nos casos de violências mais graves e urgentes”.

FONTE: O GLOBO

FRNEWS TV: Intercâmbio técnico fortalece parceria entre SENAR Rondônia e SENAR Mato Grosso

CLIQUE NA IMAGEM ABAIXO E ACESSE NOSSO APLICATIVO NA NUVEM

COLUNISTAS

PUBLICIDADE

Acesse nossa Página do Facebook

RESENHA POLITICA

TEIA DIGITAL

  • Coluna Teia Digita: Micro e Pequenas empresas exige mudanças para enfrentar 2027 – Por Silvio Persivo

    Que nem promessa de político depois das eleições. “Estou tentando escrever uma autobiografia. Mas, não me lembro nem de ontem” (Keith Richard). BANCOS DE RONDÔNIA SUSPENDERAM ATENDIMENTO PRESENCIAL NA QUINTA-FEIRA Os bancários de Rondônia, que reivindicam reajuste salarial, mudanças nos benefícios, entre eles o vale-alimentação, e manutenção dos postos de trabalho, deixaram as agências bancárias […]