Os protestos na França começaram com a insatisfação dos estudantes em relação às escolas. Mas esse foi apenas o gatilho visível. O que realmente espalhou a revolta foi algo maior: a frustração generalizada com o custo de vida.
No fundo, o que está em jogo é o futuro econômico do país.
As contas públicas estão em caos
A situação das finanças públicas da França está pior do que a do Brasil. Para ser exato, está um caos. Vejam os números:
- Dívida pública: € 3,6 trilhões, cerca de 120% do PIB- o dobro do limite de referência das regras fiscais da zona do euro.
- Déficit orçamentário deste ano: 5,4% do PIB, quase o dobro do teto permitido.
E os mercados já perceberam isso. Os juros dos títulos do governo francês subiram para níveis não vistos desde a crise financeira de 2008. Na prática, ficou muito mais caro para Paris financiar sua dívida gigante.
Sem controle das contas públicas, dificilmente a situação melhora- e fica quase impossível pensar em crescimento econômico. Uma saída seria apostar na inovação. O problema é que a França resiste a mudanças.
Não há sinais do dinamismo tecnológico que um dia marcou o país. Assim como a vizinha Alemanha, a França não conseguiu se manter na vanguarda de tecnologias como a inteligência artificial. Sua empresa de IA mais conhecida, a Mistral, está muito atrás das concorrentes americanas e chinesas nos rankings mundiais.
O remédio amargo
Para mudar esse quadro, seria preciso engolir um remédio que os franceses parecem relutantes em aceitar:
- Reformas profundas nos impostos e no mercado de trabalho, para atrair investimentos.
- Cortes nos gastos públicos, para abrir espaço fiscal e investir em inovação.
A agitação atual mostra que a realidade da França está começando a ficar clara. A pergunta é: por quanto tempo os franceses continuarão resistindo às mudanças necessárias?
Nem uma virada à direita resolve
As eleições-com a possibilidade de Marine Le Pen ou um sucessor de seu partido, o Reunião Nacional, chegar ao poder- não afastam o risco de mais turbulência política no curto prazo.
Quando o caos fiscal chega a esse nível, não há como fugir: seja com o governo atual, seja com um novo liderado pela direita nacionalista, o ambiente fiscal implacável será o mesmo. Diante do peso da dívida, qualquer governo seria obrigado a conter gastos ou fazer outros ajustes dolorosos. A incapacidade de lidar com o déficit pode piorar ainda mais a situação – algo que a Grécia descobriu ao eleger o partido de extrema-esquerda Syriza, em 2015.
A lição da Grécia (e as diferenças da França)
A Grécia serve para lembrar que a recuperação é possível. Mas ela só veio depois de anos de austeridade, reestruturação e reformas, até o país reconquistar grande parte da confiança dos investidores perdida na década de 2010.
A França, porém, está numa situação diferente:
- Sua economia é muito maior que a da Grécia.
- Sua importância para a União Europeia é muito maior.
Uma futura presidente Le Pen poderia responder à crise conduzindo a França para fora do euro – ou até da União Europeia. Mesmo no cenário mais otimista, as consequências para o resto do continente seriam desastrosas.
O recado para o Brasil
A França é um bom alerta para o Brasil mudar de rumo na eleição do próximo dia 25 -o que parece muito provável. E ainda bem.
O descontrole das contas públicas é o caminho certo para o atraso econômico.
(*) É economista e escritor.
AUTOR: SILVIO PERSIVO





















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