André Lara Resende tem uma trajetória ligada principalmente ao sistema financeiro e à academia. Além disto, ele participou da elaboração do Plano Real, experiência que reforça sua autoridade no debate. Ainda assim, sua proposta de reduzir os juros é recebida com ceticismo. Por quê? Uma das razões é a lembrança do caso turco-embora a comparação tenha limites importantes.
A experiência turca e seus limites
Entre 2021 e 2023, sob pressão do presidente Recep Tayyip Erdogan, o Banco Central da Turquia reduziu os juros, apesar da inflação elevada. Erdogan defendia a ideia de que juros altos provocavam inflação. A taxa básica chegou a 8,5% em fevereiro de 2023.
Os resultados foram muito ruins: a inflação anual ultrapassou 80% e atingiu cerca de 85% em outubro de 2022. A lira perdeu valor frente ao dólar, e o Banco Central usou reservas internacionais para tentar conter a desvalorização. Em 2023, com Mehmet Şimşek à frente do Ministério da Fazenda, o país começou a reverter a política. Os juros subiram gradualmente e chegaram a 50% em 2024. A inflação começou a recuar, mas o ajuste foi lento e custoso.
Há semelhanças com os riscos apontados pelos críticos da proposta de Lara Resende: reduzir os juros antes da inflação estar controlada pode pressionar o câmbio; a desvalorização pode alimentar a inflação; e as reservas podem ser usadas para tentar conter a pressão cambial.
Mas a Turquia não é uma comparação perfeita. Naquele período, o país enfrentava inflação alta e persistente, baixa credibilidade monetária e forte interferência política no Banco Central. O Brasil tem um regime de metas de inflação e autonomia formal para o Banco Central, além de partir de um contexto diferente. Essas diferenças importam, mas não garantem que uma redução dos juros daria certo.
A taxa básica não determina sozinha os juros longos
Uma crítica central, associada a Solange Srour, é que a Selic é uma taxa de curto prazo. Os juros de longo prazo – importantes para investimentos e para o custo de financiamento do governo- também dependem das expectativas de inflação e do prêmio de risco exigido pelos investidores.
Se o mercado entender que uma queda da Selic ameaça o controle da inflação, poderá exigir juros mais altos para emprestar a prazos longos. Neste caso, o Banco Central reduz a taxa básica, mas os financiamentos de longo prazo não ficam necessariamente mais baratos. A política perde eficácia: cai o juro de curto prazo, enquanto o custo do crédito mais longo pode subir.
A taxa real compatível com a estabilidade de preços também depende de fatores como demanda, produtividade, poupança e confiança na política fiscal. Por isso, estabelecer uma redução predeterminada da Selic não assegura, por si só, juros menores e sustentáveis.
A proposta de Lara Resende inclui a criação de um conselho para coordenar decisões fiscais e monetárias. Em princípio, a coordenação poderia ajudar a construir confiança. Mas sua eficácia dependeria das regras, da credibilidade e da disposição do governo e do Banco Central para cumpri-las. Na minha avaliação, essa é uma condição difícil de assegurar no contexto político atual.
O que acontece com os bancos quando os juros caem?
A queda dos juros também afeta os contratos de crédito existentes. Quem tem uma dívida antiga, contratada a uma taxa fixa elevada, pode tentar quitá-la ou transferi-la para outro banco por meio da portabilidade. Se isto acontece em grande escala, o banco que concedeu o crédito perde parte da receita futura esperada e precisa reinvestir o dinheiro recebido a taxas menores. Não é bem o que os bancos gostam de fazer sem ter uma compensação pelas perdas;
Este risco é mais relevante em operações prefixadas e de prazo longo. O impacto tende a ser menor em contratos cujas taxas acompanham indicadores como o CDI, pois eles são reajustados conforme as condições de mercado. Os bancos levam em conta o risco de quitação antecipada ao definir taxas e condições. Assim, os juros cobrados em determinados produtos podem cair menos do que a Selic.
Crédito barato pode ficar mais seletivo
Juros menores costumam estimular o consumo e o investimento, aumentando a procura por crédito. Mas isto não significa que todos conseguirão tomar empréstimos a taxas baixas. Os bancos avaliam o risco de inadimplência, o custo de captação e a necessidade de manter capital e provisões.
Se a procura crescer depressa e a qualidade dos pedidos de crédito piorar, a reação provável é maior seletividade: exigência de garantias, prazos menores ou recusa de clientes considerados mais arriscados. Para esses tomadores, a taxa pode até subir, apesar da queda da Selic. Portanto, não é inevitável que os bancos parem de emprestar; é mais provável que ajustem o preço e as condições de acordo com o risco.
O problema macroeconômico mais relevante seria um crescimento muito rápido do crédito sem aumento correspondente da capacidade produtiva. O consumo e a demanda poderiam avançar mais depressa que a oferta de bens e serviços, pressionando a inflação. Se as expectativas se desancorarem, o Banco Central talvez precise voltar a elevar os juros- tornando temporário o alívio inicial.
A experiência brasileira também oferece um alerta
Entre 2011 e 2013, a Selic foi reduzida até cerca de 7,25%, em um período de expansão do crédito, inclusive por bancos públicos. A inflação permaneceu pressionada, e a taxa básica voltou a subir nos anos seguintes. Este episódio não prova que toda redução de juros produzirá o mesmo resultado, mas ilustra um risco: estimular a demanda sem que a oferta e as condições inflacionárias acompanhem o movimento pode exigir uma reversão posterior. A queda dos juros pode provocar mais portabilidade e quitação antecipada de dívidas, afetando a receita futura dos bancos. Também pode ampliar a procura por crédito. Se essa procura crescer rapidamente, os bancos tendem a selecionar mais os clientes e a cobrar mais de quem oferece maior risco – não necessariamente a interromper os empréstimos.
Para a economia, o risco principal é outro: um estímulo ao crédito e à demanda que pressione a inflação e desancore as expectativas. Neste cenário, os juros longos podem subir mesmo com a Selic menor, e o Banco Central pode acabar obrigado a reverter o corte. A experiência turca reforça a importância da credibilidade e da coerência entre política fiscal e monetária, mas não é uma previsão automática para o Brasil. A redução da Selic só teria chance de ser duradoura se fosse compatível com a inflação, a capacidade produtiva e a confiança na condução econômica. Sem essas condições, os benefícios podem ser passageiros – e os riscos, maiores do que o alívio inicial sugere. E o mercado não crê, de forma alguma, que o atual governo possa criar essas condições, daí a reação e até mesmo as críticas exacerbadas contra a proposta. Não assusta, efetivamente, desagrada e muito pelos custos e os riscos que representa.
(*) é economista e escritor.
AUTOR: SILVIO PERSIVO





















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